Hipocrisia pra culpar as torcidas por tudo

Todos os dias a gente lê na imprensa opiniões preconceituosas e desinformadas sobre as torcidas organizadas. Jornalistas preconceituosos, intolerantes e aproveitadores como Flávio Prado ajudam a reforçar essas idéias, que são difundidas sem nenhum estudo concreto na imprensa. Mas se é por falta de estudo sério, agora tem.

A socióloga Heloísa Reis, socióloga e coordenadora de pesquisas da UNICAMP/CNPQ, lançou neste ano o livro Futebol e Violência. Após um longo e aprofundado estudo, ela garante que é uma estupidez a proposta de extinção das torcidas organizadas, que sempre vem à tona por parte de pessoas intolerantes e desinformadas.

“Torcidas organizadas agora recebem o rótulo de facções, numa tentativa de relacioná-las ao mundo do crime. A realidade é diferente. Torcedor organizado não é bandido!”, defende a socióloga, em artigo publicado na revista Galileu de setembro de 2009. “Costuma-se generalizar, mostrando que as mortes tem a ver só com as torcidas, o que não é verdade. Por isso, pregar a extinção das organizadas para estancar a violência é a mesma coisa que defender o fim do senado para acabar com a corrupção.”

PESQUISA DA UNICAMP
Segundo pesquisa coordenada por Heloísa Reis em seu grupo na UNICAMP/CNPQ, o número de pessoas sem emprego nas torcidas organizadas é de 2,8%, que está bem abaixo dos 8,1% da média brasileira. Além disso, 80,8% tem entre 10 e 12 anos de escolaridade, ao contrário do que se prega na imprensa.

Também segundo o estudo, os integrantes das torcidas organizadas tem consciência dos fatores que causam a violência e apontam a própria imprensa (78,1%) e a polícia (19,5%) como corresponsáveis pela situação. Além disso, 61,8% admitem que rivalidade, provocações de rivais e ignorância agravam o problema.

O estudo aponta ainda que os organizados se reúnem para discutir entre seus integrantes a política do clube e o esporte em geral, questões que não são abordadas tão profundamente em nenhum outro espaço da sociedade. E a fidelidade aos clubes é mais alta do que em qualquer outro setor da sociedade: 85% vão ao estádio toda semana, independente de o time estar bem ou mal ou mesmo de onde o jogo é realizado. Essa porcentagem não encontra paralelo entre os torcedores que não integram torcidas organizadas.

Heloísa Reis pede o fim da hipocrisia para se apontar as reais causas da violência no esporte. “Enquanto se culpa as torcidas organizadas, outros responsáveis pelo problema são poupados”, garante ela. “Há o estado, que não oferece policiamento preparado para atuar em jogos. Há até mesmo jogadores e dirigentes, que incitam a violência com declarações impensadas. E há a própria imprensa, que na ânsia de encontrar respostas rápidas comete equívocos básicos com uma visão deturpada que não contribui para a superação do problema.”

Por isso tudo, para ela, pedir o fim das organizadas é um erro colossal. “Este é um tremendo equívoco gerado historicamente no Brasil pelo desconhecimento do problema da violência em dias de jogos e por averiguações superficiais da presença de sócios de torcidas organizadas ou até por uma suposição desta participação, criou-se o mito do vinculo da violência com as torcidas organizadas apenas”, disse ela ao site Casa do Torcedor. “O que é um grande equívoco e uma maneira de não debater e compreender o problema. E consequentemente não resolvê-lo. Todos os países que enfrentaram seriamente o problema recorreram aos estudos acadêmicos e policiais para compreendê-lo e elaboraram políticas públicas subsidiadas nestes estudos.A proposição da extinção das torcidas organizadas é uma estupidez.”

“Não se resolverá esse problema fechando organizações sociais pelo fato de suporem serem estes os responsáveis pela violência em dias de jovens”, completa ela. “O que ocorre no Brasil é que a pouca seriedade das autoridades no trato da questão suscita sempre em um primeiro momento decisões arbitrárias e autoritárias da simples extinção delas.”

9 MEDIDAS CONTRA A VIOLÊNCIA
Heloísa Reis propõe 9 medidas para iniciar um combate sério e efetivo à violência nos estádios de futebol brasileiros:

1. As autoridades governamentais responsáveis pela CONSEGUE (Comissão Nacional para a Segurança e a prevenção da violência nos espetáculos esportivos) nomeiem um grupo capacitado para geri-la, além de dar suporte para o trabalho da mesma.

2. Apoiar as pesquisas sobre o tema, tanto às acadêmicas quanto as policiais. Investir em treinamento e equipamentos para a formação de policias especializados na prevenção da violência em eventos de massa.

3. Incentivar e sensibilizar os deputados e senadores na aprovação de uma lei específica para atos de violência em eventos esportivos.

4. Fiscalizar o cumprimento do Estatuto do Torcedor. Apoiar e sensibilizar o Congresso Nacional na aprovação do novo projeto de lei que propõe alterações para o Estatuto do Torcedor.

5. Acabar com a impunidade.

6. Punir os dirigentes, técnicos, jogadores, policiais, jornalistas e espectadores que provocarem (vierem a provocar) tumulto ou derem declarações à imprensa que possa incentivar a violência e a rivalidade entre os espectadores (torcedores).

7. Coibir os excessos dos agentes de segurança pública com constante avaliação de suas atuações.

8. Abrir um canal de denúncias anônimas sobre os abusos cometidos por policiais em eventos esportivos.

9. Criação de comissões estaduais de prevenção da violência em espetáculos esportivos em Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul – estados que apresentam maiores problemas dessa natureza.

E chega de achar apenas um vilão em uma história em que não existem mocinhos.