O fim da alegria

Há muito tempo sabemos que querem transformar as arquibancadas em plateia de teatro. Nada de bandeiras, nada de baterias, nada de festa, nada de gente pulando, nada de gente gritando. O futuro é todo mundo sentado apenas aplaudindo. O futuro não é mais “futuro”: ele virou presente.

Neste início de 2017, a Dragões da Real recebeu um ofício do Ministério Público informando que até o fim deste ano estão proibidos instrumentos musicais, faixas, bandeiras e quaisquer vestimentas de torcidas organizadas nos estádios. Além disso, a imposição da “torcida única” continua (e deve ser ampliada para outros jogos além dos clássicos) e quem quiser comprar ingressos para jogos de futebol só pode fazê-lo online, com uso de cartão de crédito.

Antes de mais nada, sabemos que as organizadas têm seus erros e há muitos anos a Dragões é reconhecida por defender e batalhar por essa nova mentalidade. Tanto isso é verdade que inúmeras vezes participamos como convidados de eventos do Ministério dos Esportes para mostrar essa nova mentalidade. Isso sem contar os programas de governos internacionais (como da Alemanha) em que a Dragões foi convidada especial.

Mas isso não importa para eles: pune-se o COLETIVO por causa de erros INDIVIDUAIS.

Algumas pessoas acreditam que matar a festa do torcedor brasileiro nos estádios de futebol é a forma mais eficiente de inibir a violência. A longo prazo, veremos uma nova geração de torcedores se desinteressarem pelos times brasileiros para se encantarem com as festas das torcidas do Real Madri, Barça, Juventus, Liverpool, Chelsea ou mesmo Boca Juniores e River Plate.

Isso fica ainda mais evidente com a restrição de só vender ingressos pra quem tem cartão de crédito. A transformação das arquibancadas em plateias de teatro enfim começou de fato e de direito.

Mas medidas que visam “sufocar” as torcidas organizadas farão vítimas inocentes. Após aquela punição coletiva de 1995, a Dagões da Real não conseguiu se manter como torcida nas arquibancadas no final da década de 1990 e estamos bem perto de ver a situação se repetir. Como todos puderam ver, a punição de 1995 foi inócua para diminur o problema da violência, mas a intenção agora é mais ampla: é elitizar em definitivo as arquibancadas de futebol.

E estamos perdendo essas batalhas diárias, mas ainda não perdemos a guerra. Nós acreditamos na festa da torcida nos estádios, sempre nos posicionamos contra qualquer tipo de violência, mas tem uma hora que a exaustão da batalha começa a pesar. Neste atual momento, somente com os associados da torcida abraçando a causa é que a Dragões pode continuar em sua luta diária para levar alegria às arquibancadas.

Torcedor é “cliente”? Futebol é apenas um “negócio” e não deveria envolver paixão de nenhum tipo? O futuro é ver as arquibancadas no máximo aplaudindo um gol em final de campeonato, exatamente como se aplaude uma apresentação teatral bem sucedida. Sim, é exatamente isso que eles querem.

Aguarde alguns meses, talvez um ou dois anos, e você verá aonde vamos parar com todas essas medidas. A alegria do futebol tem data para ser sufocada. E é exatamente isso que eles querem.