Tipo de jogador que ninguém quer

Por muito tempo fui partidário daquela famosa frase: “o jogador pode fazer o que quiser fora de campo, desde que ele resolva o jogo no domingo”.

Quando comecei a trabalhar com futebol e conversar longamente com técnicos e jogadores – eu sei que para quem acompanha futebol atualmente, ou até quem trabalha, isso parece mentira, mas houve um tempo em que era possível falar longamente com os profissionais depois dos treinos, sem assessores de imprensa ou as gessadas entrevistas coletivas – descobri que a famosa frase não é utilizada no cotidiano do chamado “mundo do futebol”.

Talvez por isso, eu passei a entender a razão de um clube não contratar determinados jogadores e também os treinadores afastarem alguns jogadores considerados bons tecnicamente, aparentemente sem nenhum motivo.

Nada mais irrita aos que vivem no futebol do que aquele jogador que se considera mais do que ele é – todos sabem quem é craque ou aquele que só engana.

Pode reparar que os jogadores que deixam um clube sem explicação são aqueles que adoram chamar a atenção. Ou seja, aquele tipo de jogador que sente a extrema necessidade de ser elogiado pelos seus companheiros e pela imprensa.

E quando isso não acontece, eles fazem de tudo para turbinar seus predicados. Esse é o tipo de atleta que adora falar; “eu fiz”, “eu sou o primeiro a chegar e o último a sair”, “eu tenho mais vontade e “eu sou mais dedicado que os meus companheiros”.

Ou seja, é aquele caso típico de alguém que adora cobrar, mas que detesta receber uma crítica – mesmo declarando que espera retorno e que as observações só o fazem ter um desempenho ainda melhor.

Esse tipo de jogador, que ninguém quer no time, é personalista ao extremo, adora amplificar suas obras e se sente insubstituível. Se ele faz um gol após receber o passe do companheiro, vai enaltecer o seu sentido de colocação. Se um passe dele terminar em gol, logo fará questão de deixar registrado que sem o seu lançamento nunca o tento saído, além de cobrar publicamente o autor do gol por não ter dado um único abraço pelo presente dado.

O mimado adora jogar para a torcida, fazendo coisas que para quem está de fora pode parecer um grande feito, mas para o time – ou para o resultado final – nada acrescenta.

Também faz questão de entregar quem foi responsável – mesmo que não nominalmente – pela derrota da equipe, como essas frases: “Perdemos num erro individual”, “Em um jogo de poucas chances não poderíamos ter perdido a única chance que tivemos”.

Internamente também acaba minando um elenco. É comum esse tipo de jogador um dia tratar um companheiro como seu melhor amigo e no outro ignorá-lo totalmente. Também ele adora montar as famosas “igrejinhas” para falar mal da diretoria, técnicos e, principalmente companheiros.

Além de influenciar negativamente alguns colegas, principalmente aqueles que vivem um situação mais intranquila ou os mais novos, os usando para ter alguma vantagem. Lógico que quando a corda estoura, o “traíra” entrega a cabeça do “parceiro” em uma bandeja, mesmo falando que fez de tudo para salvar o seu novo amigo.

No futebol – e também na vida – não basta dizer que ter talento, sempre lembrando que também não é possível enganar por muito tempo (se tiver alguma habilidade também e preciso saber conviver com seus companheiros de clube).

[Blog Peron na Arquibancada/Globo Esporte]