SPFC detona Casares na Justiça: R$ 7 milhões em saques sem comprovação 

O São Paulo apresentou contestação na Justiça sobre a ação movida pelo ex-presidente Julio Casares, que renunciou no início do ano para evitar sofrer impeachment. E o clube detonou o processo, disse que recebeu com “irresignação” o movimento feito pelo cartola e classificou como “graves” os argumentos utilizados pelo dirigente, que em vez de assumir responsabilidade por seus atos, tenta transferi-los a terceiros.

A ação movida por Casares havia sido publicada em primeira mão pela ESPN, que teve acesso agora à documentação enviada pelo Tricolor à Justiça, em petição anexada Às 9h25 no tribunal e que será analisada pelo juiz Valdir da Silva Queiroz. E o clube atacou o ex-presidente, ao dizer que os fundamentos trazidos por Casares são “alucinações”.

Citou que o dirigente “ignora os próprios atos” e lembrou que ele admitiu publicamente ter utilizado o cartão corporativo do clube para fins pessoais, em despesas com vestuário e artigos de luxo, restaurantes, charutaria, salões de beleza, despesas médicas e medicamentos pessoais e petshops.

“Casares ignora que, sob sua presidência, movimentações financeiras de expressivo valor ficaram sem documentação suficiente de origem, finalidade e destino e que a auditoria independente, pela primeira vez, lançou ressalva sobre saques não integralmente documentados. Ignora que só instituiu regras para o uso do cartão em 2025, depois de quatro anos de presidência – e que o fez, como se demonstrará, somente depois que o histórico de mau uso começou a ganhar publicidade”, disse o clube.

O São Paulo destacou também que as condutas do ex-presidente seguem sendo investigadas em inquéritos civil e criminal.

“Casares diz querer recompor sua ‘honra e dignidade’ e sua ‘credibilidade perante a sociedade’, mas imagem não se obtém por sentença; resulta da conduta de quem dirige. E, perante a torcida do SPFC e a opinião pública em geral, lamentavelmente, Casares não é lembrado por ‘maquinação política’ alguma, e sim pelos atos de que é acusado e pela deterioração financeira que marcou a sua gestão”, continuou a defesa do Tricolor.

O São Paulo destacou que a Comissão de Ética do clube reconheceu a existência de “movimentações financeiras de expressivo valor sem documentação suficiente para demonstração de sua origem, finalidade e destino. Registrou que os representantes apontaram aproximadamente R$ 7 milhões em saques das contas do clube cuja documentação de “lastro” não permitia comprovar origem, finalidade e destino, e que, segundo os elementos dos autos, a auditoria independente “também registrou não ter obtido evidências suficientes que permitissem rastrear parte relevante das movimentações financeiras analisadas”.

“A Comissão de Ética identificou despesas em estabelecimentos de vestuário e artigos de luxo, restaurantes, charutaria, salões de beleza, despesas médicas e medicamentos pessoais e compras em petshops, cuja natureza, diversos casos, não evidencia qualquer relação com as atividades institucionais do Clube. O ponto decisivo, porém, ‘está na própria admissão atribuída a Casares, registrada nos autos, de que passou a utilizar o cartão do Clube também para finalidades pessoais”, acrescentou o Tricolor.

A defesa do São Paulo ainda mencionou que o parecer da comissão de ética foi analisado pelo Conselho Deliberativo, que aprovou por ampla maioria, 224 votos a 2, a condenação de Casares. O Tricolor pediu pela extinção do processo movido pelo ex-presidente na Justiça.

Entenda o caso

Ex-presidente do São Paulo, Julio Casares entrou com uma ação contra o clube na Justiça para tentar reverter a acusação de “gestão temerária” e, consequentemente, anular sua expulsão do quadro associativo, ocorrida no dia 10 de setembro por ordem do Conselho Deliberativo tricolor.

Na petição, à qual a ESPN teve acesso, o ex-dirigente quer que o poder judiciário reconheça que sua gestão foi “regular, de boa-fé e aprovada pelos órgãos competentes”, sustentando que “não houve gestão temerária, apropriação de recursos ou desvio de finalidade” e que as acusações contra ele “surgiram em um contexto de disputa política interna” no Morumbis.

A tese central da ação é de que Casares atuou sempre de “boa-fé” e “apoiado por profissionais especializados das áreas financeira, contábil, jurídica e de compliance”. Segundo a petição, “eventuais decisões técnicas e classificações contábeis eram responsabilidade desses departamentos”, e “não exclusivamente do presidente”.

O ex-dirigente salienta que o Tricolor tinha, na sua gestão, “mecanismos de governança e compliance”, com “auditoria independente”. Ele ainda salienta que o Conselho Fiscal e Conselho de Administração da equipe acompanhavam suas contas, assegurando que “não houve dolo nem culpa grave por parte do autor”.

A petição ainda enfatiza que as contas dos exercícios de 2021, 2022, 2023 e 2024 foram “aprovadas pelos órgãos estatutários do clube”, acompanhadas inclusive “de pareceres favoráveis da auditoria independente, do Conselho Fiscal e do Conselho de Administração”.

Quanto às contas de 2025, que foram reprovadas pelo Conselho Deliberativo do São Paulo, a defesa de Casares diz que elas foram aprovadas pelos Conselhos Fiscal e de Administração, com a auditoria independente apenas apontando “ressalvas” e “pedidos de esclarecimentos”.

O ex-presidente lembra que o clube tricolor “apresentou superávit de R$ 56 milhões” no exercício, com “redução da dívida em R$ 110 milhões”.

Por todos esses argumentos, a petição sustenta que a reprovação das contas de 2025 teve “motivação essencialmente política”, e não “técnica”.

O São Paulo também deixa claro que Casares não aponta vício procedimental especifico e nem pede pela anulação do processo movido na Comissão de Ética do clube. “Casares não aponta qualquer ilegalidade ou irregularidade formal da reprovação, quer apenas que o Judiciário a substitua por uma declaração de ‘conformidade'”.

Além disso, apontou que a devolução de valores gastos com cartão corporativo – o ex-dirigente devolveu cerca de R$ 560 mil – “não legitima nada” e ainda que os valores restituídos não possuem demonstração que correspondam à totalidade dos gastos questionados.

“A devolução posterior não torna regular o uso original do cartão corporativo. Nada mais é do que o reconhecimento de que o gasto foi feito com finalidade ilegítima e não podia ser suportado pelo Clube. Como bem decidiu a Comissão de Ética, o ressarcimento posterior “pode reduzir o prejuízo patrimonial, mas não transforma em regular o ato originalmente incompatível com a finalidade do instrumento financeiro”, definiu o Tricolor.

Por fim, o São Paulo diz que ainda vai calcular os valores que Casares deve ressarcir o clube.

Os saques em dinheiro vivo

No documento, Casares também aborda a polêmica dos quase R$ 11 milhões sacados em dinheiro vivo entre 2021 e 2025.

De acordo com o ex-presidente, esse valor “representa uma parcela muito pequena do volume financeiro movimentado pelo clube”. Ele também alegou que os recursos seriam “destinados a premiações”, os chamados “bichos”, além de “serviços operacionais e despesas promocionais”.

Segundo a defesa, a prática de pagar o famoso “bicho molhado” já “existia em gestões anteriores” e “continuaria ocorrendo após sua saída”. Um trecho da petição, inclusive, cita fala do atual executivo de futebol do São Paulo, Rafinha, para apoiar essa tese.

“A permanência do denominado ‘bicho molhado’ na própria gestão atual do SPFC confirma, de maneira particularmente contundente, que o pagamento de premiações em espécie não era uma anomalia atribuível ao autor, mas verdadeiro costume do futebol”, diz o documento.

“Conforme amplamente noticiado, a atual gestão presidida pelo Sr. Harry Massis igualmente adotou o mesmo procedimento, por iniciativa do executivo de futebol Rafinha e com a concordância da Presidência. O próprio executivo (Rafinha) declarou: ‘Já recebi dinheiro em espécie no São Paulo, no Flamengo, no Grêmio, no Coritiba. Em todos os clubes em que eu recebi. Isso faz parte do futebol. É o bicho molhado'”, seguiu.

“Esta declaração possui especial relevância in causa porque demonstra que a entrega imediata de premiação em dinheiro constitui prática conhecida e disseminada em diferentes clubes brasileiros. Mais do que isso, evidencia que o próprio SPFC continuou a sacar e manusear dinheiro em espécie após a gestão do autor. É manifestamente contraditório, portanto, utilizar contra a administração anterior um procedimento que a gestão sucessora reconhece como usual, legítimo e funcional”, complementou.

Casares ainda assegurou que “não existe prova documental” de que os valores sacados em espécie “tenham sido recebidos ou apropriados pessoalmente” por ele.

O caso do cartão corporativo

Sobre a polêmica do cartão corporativo do Tricolor, que teria sido usado por Casares para pagamentos de despesas pessoais, o ex-cartola apontou que “não existiam regras claras para sua utilização em gestões anteriores”

Ele argumenta que, em 2025, “foram criadas normas internas de controle”, com o então presidente “devolvendo voluntariamente” o valor de R$ 560.401,74 ao clube, corrigidos monetariamente, “para evitar questionamentos futuros”.

A petição ainda sustenta que houve “perseguição política interna” contra Casares, a chamada “lawfare”, que é, em termos jurídicos, a “utilização de mecanismos institucionais para atingir adversários políticos”.

Os pedidos feitos à Justiça

À Justiça, Casares pede que seja declarada a “inexistência de gestão temerária em sua administração”, especialmente quanto ao exercício de 2025, e também o reconhecimento da eficácia jurídica do quitus decorrente da aprovação das contas de 2021 a 2024.

O ex-presidente também quer que o poder judiciário declare como regular o uso do cartão corporativo diante da devolução dos valores.

O ex-cartola ainda exigiu que seja determinado que o São Paulo apresente “ampla documentação financeira e contábil”, realizando perícia contábil judicial para verificar se houve efetivamente gestão temerária ou desvio de recursos.

Fonte: ESPN